Céu de Baunilha.
Uma breve discussão sobre um dos meus filmes favoritos.
Recomendo fortemente que você assista ao filme antes de seguir, logo abaixo tem spoilers que podem afetar a sua experiência com o filme.
“Open your eyes.”
Mas será que queremos mesmo acordar?
Sonhos, delírio, romance, ego, morte e renascimento. Esse é um dos meus filmes favoritos, Vanilla Sky (2001), a versão americana, dirigida por Cameron Crowe, baseada no original espanhol Abre los Ojos de Alejandro Amenábar.
Mais que um thriller psicológico sobre um editor rico (David Aames) desfigurado num acidente, o filme é uma imersão nas perguntas que assombram nossa existência: O que é felicidade? Como nossas escolhas nos definem? E até que ponto fugimos da realidade que criamos?
No início, David Aames (Tom Cruise) é o arquétipo do sucesso. rico, bonito, dono de uma grande editora herdada do pai. Ele habita um universo de privilégio e de superficialidade. Sua vida é uma sucessão de festas, rostos bonitos e conexões vazias. Ele possui tudo, mas é nada. É um homem definido por externalidades, flutuando sobre a própria existência.
Mas tudo muda com a introdução de Sofia (Penélope Cruz) um sopro de genuína alegria e espontaneidade em sua vida oferece a David um vislumbre de algo real. Algo que não pode ser comprado ou herdado. Sofia não é só mais uma garota por qual David irá ter alguma relação. Ela também não é apenas “a garota mágica dos sonhos”. Ela personifica uma autenticidade que o mundo de David não possui, ela é o limiar tangível entre a lucidez e a alucinação, o símbolo da beleza que não pode ser possuída, apenas sentida. O oposto da ex amante de David, Julie (Cameron Diaz), que representa o apego doentio, o controle, o medo de perder.
E como o ego lida com o medo de perder?
Com destruição.
A realidade é um software instável.
Julie destrói completamente o mundo de David causando um grande acidente de carro, que como consequência acaba desfigurando o rosto de David. É a partir desse momento em que a história entra em coma, o acidente de carro não é um mero ponto de virada na trama, é um momento de ruptura. A narrativa entra em coma, e o que se segue é um quebra-cabeça de memórias, projeções distorcidas e realidades sobrepostas. O tempo perde sua linearidade, rostos mudam, a lógica se dissolve, e nada faz sentido, mas tudo é profundamente familiar. Assim como nossos próprios sonhos.
Isto nos leva a nossa primeira questão: O que nós somos, senão um acúmulo de memórias, editadas e narradas por um EU frágil, tentando dar sentido ao caos?
A genialidade de Vanilla Sky reside em sua revelação progressiva: não estamos assistindo a um filme sobre um homem. Estamos navegando pelo inconsciente de um homem tentando, contra todas as probabilidades, se perdoar.
A deformidade física do rosto de David, resultado do acidente, é a materialização da sua podridão interior. É o colapso do seu narcisismo, a fachada desmoronando para revelar o vazio por trás. A máscara protética que ele passa a usar não é apenas plástico e silicone, é o escudo que todos nós empregamos para esconder a vergonha, o trauma, o medo de não sermos mais dignos de amor uma vez que nossa “beleza” ou “utilidade” se vai.
Liberdade ou Esquecimento?
A tragédia se aprofunda quando percebemos: David não quer acordar. Ele anseia pela permanência no sonho onde ainda pode ter Sofia, onde ainda é perdoado, onde ainda há chance de redenção.
Em um diálogo que é o coração filosófico do filme, David conversa com o Suporte Técnico da empresa de Criopreservação. David, incapaz de suportar o fardo de sua realidade, contratou os serviços da Life Extension. Ele escolheu uma animação suspensa, um exílio voluntário em um paraíso artificial de seus próprios sonhos, enquanto espera por uma cura futura para as feridas no seu rosto que talvez nunca venha.
No final, ele precisa fazer uma escolha: permanecer no sonho, que agora é um pesadelo controlado, ou dar um “salto de fé” de um prédio dentro do sonho, acordando assim para a realidade fria e provavelmente sombria de seu corpo congelado e preservado.
Essa para mim é a lição mais brutal e mais bela de Vanilla Sky. A verdadeira coragem não é buscar a perfeição, mas abraçar a vida em toda a sua bagunça dolorosa e gloriosa.
O “salto” de David não é um ato de suicídio, mas um ato de renascimento. É a aceitação de que uma única gota de autenticidade vale mais que um oceano de ilusão. E quem de nós não faria o mesmo? Quantas vezes em nossas vidas, optamos pela cela confortável da ilusão?
O relacionamento que já morreu, mas que revisitamos em loops mentais.
A carreira que desejamos, enquanto nossa energia se esvai em um trabalho que nos anestesia.
As personas que cultivamos online, máscaras digitais para fingir, para nós e para os outros, que a fratura não existe.
No final, Vanilla Sky é um filme sobre a perda. Mas, em uma camada mais profunda, é um tratado sobre o autoengano.
David Aames desejava desesperadamente ser amado por quem ele era, mas só conhecia a gramática da sedução. Ele ansiava ser verdadeiramente visto, mas só exibia a fachada limpa. Ele clamava por uma vida autêntica, mas, quando confrontado com a oportunidade, escolheu dormir.
E nós, espectadores em um mundo cada vez mais indistinguível de um sonho lúcido coletivo? Quantas de nossas horas são gastas sonhando acordados com vidas paralelas, com conexões que só existem no digital, com futuros que são meros filtros aplicados sobre um presente que nos assusta?
Vanilla Sky é um filme que não nos deixa com respostas. Ele nos deixa com uma pergunta, cruel, incômoda e absolutamente necessária, que ressoa por logos dias.
Se você pudesse viver para sempre, dentro do seu sonho mais vívido, perfeito e pessoal… você teria a coragem de acordar?
A escolha, como sempre, é sua.
“Cada minuto que passa, é uma chance para mudar tudo para sempre”.
Abrir os olhos ou continuar sonhando.
Chegamos ao fim de mais uma breve reflexão. Compartilhe com alguém que possa se interessar. E considere se inscrever para não perder nenhuma nova publicação.
Me desculpem por ter sumido assim, eu prometo que esse mês eu vou ser bem mais ativo aqui.
Agradeço a todos que leram até o final.♥
Abraços, Leoni.




Eu bati tambor, coloquei seu nome no açúcar, tirei em todo baralho, fiz simpatia, fiz oração e ele finalmente voltou!!!!!
Texto incrível!!! Que saudade de te ler 🤍